3.9.08

Testemunho

Os shows do Projeto Seis & Meia de ontem tiveram uma participação pra lá de especial: Sara, de apenas quatro anos, filha do jornalista e músico Moisés de Lima. Sara cantou e encantou as atrações da noite (Mirabô e Renato Terra) e toda a platéia.

Sarinha, como é chamada carinhosamente por todos, cantou com Mirabô a canção "Colando a Boca no Teu Rosto" (parceria de Mirabô com Capinam). Mirabô, que sempre tem tantas histórias para contar, dessa vez trouxe a protagonista de uma delas para o palco. Ele contou que chegou à casa do jornalista Moisés de lima e ficou impressionado com a pequena Sara que sabia cantar todas as músicas do seu disco. Mirabô ressaltou que são canções muito elaboradas, mas sempre modesto, disse que não devido a ele, mas por causa dos músicos pra lá de profissionais que o acompanham e dos poetas que ele tem o privilégio de musicar enquanto compositor. À elegância de Mirabô somou-se a elegância de Sara, que demonstrou uma habilidade incrível com o instrumento da voz e uma intimidade surpreendente com as canções. Mirabô disse que foi esse o motivo dele ter convidado Sara: mostrar que as pessoas precisam ter acesso à boa música. Através dos seus pais, Sara tem acesso a belas canções desde cedo e desenvolveu um gosto pela qualidade. Mirabô convidou Sara para ela dar esse testemunho. Sara voltou para o bis de Mirabô, e ainda cantou com Renato Terra um clássico pop seu dos anos 80: "Bem Te Vi".

Que bem te vi, Sarinha! O que me fez lembrar um texto que li recentemente na internet. Ao escrever o artigo UMA VISÃO POÉTICA DO ESPAÇO SEGUNDO GASTON BACHELARD (1884-1962), João Ferreira diz:

"Como as coisas têm de ser provocadas para que nasçam, os indivíduos e a sociedade terão de colocar na ordem da vez, através de uma revolução especial de pensamento, de educação, de opinião e de movimento de idéias, esta postura para que as coisas do nunca cheguem a celebrar as núpcias da sua vez."

Já no blog DoSol, Anderson Foca postou um texto do jornalista Marcos Bragatto (ABAIXO A PREGUIÇA, ACIMA A OUSADIA!), que acredito muito bem servir para complementar essa reflexão.

Carito

por Os Poetas Elétricos [16:33]
27.8.08
um dia aziago,

de zanha, infeliz, sem senha pra azenha, azucrinando o azul, onde está o alvissareiro? a doçura, o untar, o que não se faz mordaz? um dia aziago, irritado, não untado, o cume do azedume, que vem azafamar a palavra-zagaia avizinhando-se desditoso ligeiramente deslocado para a esquerda do peito, e zomba dos poetas nas colinas altaneiras.

um dia sem esmero, transtornado, ilusório, transformado em mero
palavrório.


carito
por Os Poetas Elétricos [18:29]
25.8.08
AVISO IMPORTANTE

Atenção: devido às chuvas, o show que nós íamos fazer no Castelo Pub Bar foi adiado para outubro. Em breve divulgaremos a nova data. Agradecemos a compreensão.
por Os Poetas Elétricos [19:25]
7.8.08


Nós nos deitamos e fumamos; e agora, sem palavras, nos entendemos perfeitamente, na eloqüência de um silêncio que não apenas contém tudo o que já foi e tudo o que um dia será dito, mas também inutiliza toda essa vasta babel, deixando somente a pureza etérea daquela poesia sem palavras que só os maiores poetas vislumbraram em epifanias. Tais epifanias parecem surgir na fumaça de cigarro que paira sobre mim. Shakespeare - "Aprendei a ler o que o silencioso amor escreveu" - entrelaçado com o grande testamento de Pound: "Tentei escrever o paraíso/ Não se mova / Deixe falar o vento / Esse é o paraíso".

Aprender a ler o que o silencioso amor escreveu, curvar-se ao poder do vento. Isso é viver. Isso é saber que aquilo que pode ser dito ou escrito não é nada diante desse silêncio e desse poder. O mestre Cha' na Niu-t' ou Fa-Yung, mais de 1300 anos atrás: "Como podemos obter a verdade com palavras?"


(Do livro A ÚLTIMA CASA DE ÓPIO, de Nick Tosches)


por Os Poetas Elétricos [17:34]
4.8.08

Rimbaud na África


Os homens pareciam bastante selvagens, com seus cabelos presos em longas tranças e untados de manteiga. Este era um hábito dos gauleses antigos, dos quais Rimbaud diz: "Acho-me no vestir tão bárbaro quanto eles. Só não besunto a cabeleira" ("Sangue mau"). Dessa forma, o passado pagão e o presente africano se confundem no mercado de Zeila.

Os issás tradicionalmente portavam armas - dardos e zagaias, espadas e escudos - e Rimbaud e Righas, sem dúvida, portavam rifles: Remingtons, provavelmente. Em sua carta de 2 de novembro, Rimabud escreveu de forma displicente sobre os riscos da viagem, ao mesmo tempo assustando e tranquilizando sua mãe: "Não preciso dizer que só s epode andar aqui armado e existe o risco de deixarmos a pele nas mãos dos galas - embora esse perigo já não seja tão grande".

Apesar dessas últimas palavras tranquilizadoras, os riscos eram bem grandes, e pouco antes de a caravana de Rimbaud deixar Zeila, no dia 16 de novembro, chegou a notícia de que a caravana de Henri Lucereau havia sido atacada e "destroçada" pelos galas na região dos itous, a noroeste de Harar. Uma canção gala diz:

Uma lança sem sangue não é uma lança
Amor sem beijos não é amor.


Extraído do livro "RIMBAUD NA ÁFRICA - OS ÚLTIMOS ANOS DE UM POETA NO EXÍLIO (1880 - 1891)", de CHARLES NICHOLL.

por Os Poetas Elétricos [09:21]
30.7.08
Texto muito sentido pescado lá no blog de Carlos Gurgel:


MÚSICA, ARTE E PSICODELISMO NA AREIA
( NATAL, ANOS 70 )


Mais cedo ou mais tarde as mudanças chegariam. Nos anos sessenta a concentração de banhistas se deslocaria de Areia Preta até a Praia do Forte, com suas piscininhas naturais e a imponência do Forte dos Reis Magos guardando o lugar. Para lá se dirigiam as famílias, crianças com pás e brinquedos de areia, casais de namorados que caminhavam de mãos dadas sob o olhar de todos. A Praia do Meio, na sua condição de ser do meio, deixava que viessem a ela as classes mais baixas: quem descia das Rocas ou tomava o ônibus no Alecrim ou Cidade da Esperança. O pessoal de uma praia não invadia as areias da outra, cada um consciente de seu espaço. Com os anos setenta, novos ventos sopraram naquele pedaço de praia. A revolução mundial dos costumes refletia por aqui. Contracultura, movimento hippie, baseados, tudo isso vinha aportar também em nossas praias. Filmes como Easy Rider e Woodstock eram exibidos na Sessão de Arte do cinema Rio Grande, discos dos Beatles e dos Rolling Stones evaporavam das prateleiras. O comportamento jovem passava a ter outro relevo. Tudo era determinante, as roupas que se usava, aquilo que se comia e, claro, a praia a qual se frequentava. Segundo o músico Luiz Lima, que viveu ativamente essa época, " no início da década de setenta, começou a acontecer uma transformação nos ares e nos lugares da cidade, em toda parte a moçada começava a se dividir. De um lado ficavam os ?caretas?, de outro, nós, os ?malucos? ". Para os caretas, tudo continuaria igual, já os outros precisariam de mais espaço para estravazar sua arte e inconformismo, distante da área militar e família da Praia do Forte. Foi aí que se descobriu a Praia dos Artistas. A praia deixava de ser um lugar destinado apenas a caminhadas ou banhos de sol e mar, tornando-se porto para o deleite do corpo e da mente, aproveitado ao longo de todo o dia e também durante a noite. Logo começaram a surgir bares, barracas, quiosques, boates, espaços culturais, que se estendiam da Praia dos Artistas até a Praia do Meio, que se tornaram cartão de visita de Natal e grande opção de quem quisesse conhecer a noite da cidade. As areias ganhavam o colorido das batas indianas, camisetas explodindo em motivos psicodélicos, e o brilho dos corpos ao sol rivalizava com o brilho das lantejoulas ao luar. Arte e cor eram trazidas por uma grande leva de estudantes universitários, pretensos artistas locais, que tinham na Praia dos Artistas seu ancoradouro. O país atravessava uma fase de ditadura e opressão, talvez por isso, o ato de criar se fizesse tão necessário. Bares como o Tirraguso, o Artmanhas, a Casa Velha se enchiam de rostos jovens. Eram atores, dançarinos, artistas plásticos, poetas ensaiando o que ia ser a época de ouro da cultura da cidade. Todos fazendo uso daquele espaço para mostrar o que sabiam. E não parava por aí...o tinham as barracas toscas da Praia do Meio, ainda na areia, como a famosa "Barraca da Marlene" para quem queria sentir o mar perto. "Era nas barracas que nos reuníamos para compor as melodias da banda Gato Lúdico, eu, Jaime Figueiredo, Carlos Lima e Claudio Damasceno. Lá vivíamos noitadas acompanhados do violão, dos mixes de cachaça com cerveja e tiragosto", lembra o arquiteto e artista plástico Vicente Vitoriano. Na época, a praia possuia dois espaços culturais: a Galeria do Povo e o Artelier. Também abrigando o primeiro restaurante macrobiótico de Natal, onde o pessoal ia se liberar das toxinas consequentes dos excessos noturnos com os pratos do proprietário Véscio Lisboa. Na segunda metade dos anos setenta, surgiu o Festival do Forte, idealizado pelo músico Luiz Lima, o artista plástico Sandoval Fagundes e o escritor Carlos Gurgel. "O festival acontecia na terceira lua de cada mês e era um momento de muita música, muita poesia e muita loucura, depois disso, nunca houve nada em Natal tão contundente para nossa cultura como o Festival do Forte", recorda hoje Gurgel, com os olhos cheios de nostalgia. Yuno Silva, estudante de Comunicação, era criança nesse período, mas lembra de quando era levado pelos pais junto com o irmão para curtir o festival, "Os moleques ficavam pulando naquela casa de armar no meio do Forte. Era incrível, sendo criança, ver de perto artistas como Chico César, Aguillar, Chacal, Jards Macalé...são tempos que não voltam mais. Durante os anos setenta e oitenta, a praia dos artistas era um lugar concorrido durante toda semana. A jornalista Cione Cruz diz que " a partir das quintas feiras, íamos à praia de dia para tomar sol e à noite exibíamos nosso bronzeado nos bares e boates de lá". Havia ainda uma turma que fazia da praia dos artistas a sua casa, gente que chegava de manhã, depois da aula, de mochila nas costas, trocava o calção de banho e ia jogar frescobol nas areias ou surfar naquelas ondas. Um bom exemplo desse tipo de frequentador era o jornalista Flávio Rezende, assíduo jogador de frescobol, "chegava por volta da 11, 12 horas, depois das aulas do curso de Comunicação da UFRN e ficava até às 18 horas". Nos anos oitenta se intensificou também a prática do surf, daí vieram o campeonatos ao bar caravela, transmitidos nos alto falantes. "Sinto saudade do rock muito alto que tocava durante os torneios, dos amigos sem hora pra ir embora, as paqueras na beira da praia e os beijos na boca apaixonadíssimos, que até deixava a gente meio fraco..." Com a ida dessas décadas, foram-se também a grande maioria dos frequentadores do lugar. A maturidade e as ocupações iam distanciando pouco a pouco os antigos. E a falta de segurança inibia a formação de uma nova geração de praieiros. A reurbanização e construção dos quiosques de cimento, ao invés das barracas, não foram suficiente para assegurar a reestruturação da área. Natal acontecia agora bem longe dali. As diversões eram outras, as praias também. A burguesia ia de carro até os distantes litorais norte e sul, procurando aquilo que já não se via mais no urbano: segurança, tranquilidade. O desfile de beleza nas praias urbanas, as paqueras no calçadão, davam lugar a um outro tipo de oferta. O "quem me quer" adquiria outra feição com a explosão do turismo e a procura dos estrangeiros pelas mulheres locais.

(http://onthee.blogspot.com/)
por Os Poetas Elétricos [21:30]
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